sexta-feira, 3 de julho de 2009

As diferentes formas de uso do crack e os seus danos à saúde. *

O crack pode ser fumado de diferentes maneiras. A primeira forma que descreveremos é a do crack fumado em forma de “cigarros”. A “pedra” é quebrada, misturada com tabaco ou com maconha, enrolada numa “seda” e fumada. A grande maioria dos usuários que fumam crack em cigarros mistura as pedras com a maconha[1] e o fumam na forma de “baseado”. Esta parece ser a maneira menos danosa psiquicamente, pois a “nóia”[2]que é um dos efeitos do crack, é minimizada pelo efeito da maconha, e isso pode ser importante na medida em que administrar a paranóia parece ser um dos principais problemas dos usuários de crack.


O crack também pode ser fumado em cachimbos, em latas de alumínio e em copos de água descartáveis. Embora os apetrechos para o uso sejam diferentes, a forma de colocar a “pedra” em combustão é sempre a mesma, ou seja, primeiro coloca-se cinza de cigarros no local em que será queimado o crack e por cima a “pedra”. Em seguida, esta é acesa, utilizando-se um isqueiro ou fósforos e aspira-se a fumaça.


Para se “fumar na lata” é necessário esvaziar o seu conteúdo, caso ela esteja cheia, amassá-la ao meio, e fazer pequenos furos com um prego fino ou uma agulha no local amassado. Lá será colocada a cinza e a pedra para ser queimada. O uso de latas é mais prejudicial, porque estas geralmente são coletadas na rua ou no lixo e podem estar contaminadas com diferentes agentes infecciosos. Além disso, essa forma favorece a aspiração de uma grande quantidade de fumaça pelo bocal, promovendo, assim, uma intoxicação pulmonar muito intensa.


No Rio Grande do Sul, foi feita uma pesquisa recentemente pelo Centro de Pesquisa em Álcool e Droga da Universidade Federal do Rio Grande do Sul[3], onde se constatou que os usuários de crack:

(...) correm risco de ter ossos enfraquecidos, demência, e até agravamento do Mal de Alzheimer por aquecer as latas de refrigerantes a cada vez que inalam a droga [...] Os males ocorrem em razão da exposição excessiva ao alumínio, que se desprende com mais facilidade com o calor. (Zero Hora, 2006)

Os recipientes mais recomendáveis para se fumar crack, do ponto de vista da redução dos danos conhecidos associados a esta prática de uso, são os copos plásticos descartáveis de água mineral. Para usá-lo, pega-se um desses copos, com água mineral, colocando-o na horizontal. Em seguida, com a brasa de um cigarro, faz-se um buraco na sua lateral, esvaziando-se metade da água. Este é o local por onde deverá ser aspirada a fumaça. Na cobertura de alumínio, no topo do copo, fazem-se pequenos buracos com um alfinete ou agulha, onde será colocada a “pedra” para ser fumada. Usados da forma descrita, esses copos parecem ser os “cachimbos” mais adequados e menos danosos, uma vez que ao passar pela água no seu interior, a fumaça será umedecida e terá suas partículas sólidas retidas no líquido evitando sua aspiração.


Fumar crack pode ocasionar vários tipos de danos. São indubitáveis os problemas respiratórios causados pela inspiração de partículas sólidas no ato de fumar essa droga. Por ser um estimulante, causa também perda de apetite, falta de sono e agitação motora. Estes efeitos dificultam, por sua vez, a ingestão de alimentos, podendo levar à desnutrição, desidratação e gastrite. Observam-se, também, outros sintomas como rachaduras nos lábios, causados pela falta de ingestão de água e de salivação, cortes nos dedos das mãos causados pelo ato de quebrar as “pedras” para uso, além de queimaduras nos dedos e, em alguns usuários, no nariz, causadas pela chama usada para fumar o crack ou até mesmo pela sua própria combustão.


O estudo de Ramachandaran (2004) aponta vários problemas pulmonares entre os usuários de crack atendidos em um serviço da Pensilvânia. Entre os problemas relatados estão: edema pulmonar, hipersensibilidade a pneumonia, bronquioespasmo, hemorragia alveolar. Já o estudo de Souza (2002) realizado no Hospital Evandro Chagas, no Rio de Janeiro com 675 homens que fazem sexo com homens e usam crack, apontou o uso de crack como fator de risco para o sexo desprotegido.


A tese de doutorado defendida por Nappo em 1996, foi um estudo importante. Nas 42 entrevistas realizadas, a autora buscou conhecer as relações culturais e os padrões de uso relacionados aos consumidores de crack e de baque[4] sob a ótica dos usuários. No contexto sociocultural, descreve o estilo de vida decorrente do uso de crack e de baque, estilo de vida anterior ao uso de drogas, cultura do uso, forma de preparo da droga. Descreve as histórias de consumo e a iniciação ao uso. Entre as conclusões, podemos destacar, além da defesa da metodologia qualitativa para a pesquisa com usuários de drogas, as descobertas nas semelhanças de diferenças entre os “craqueiros” e “baqueiros”, ou seja, altos índices de exclusão social, risco acrescido para DST por dificuldade no uso do preservativo, e grande sensação de paranóia.


As comprovações de Nappo também apareceram no estudo de Hatsukami (1996). Um estudo bastante amplo de revisão de todos os artigos que apareceram no medline entre 1976 a 1996 usando os termos “smoked cocaine, crack cocaine, freebase e cocaine-base”, que tinha por objetivo geral revisar e discutir as diferenças e similaridades entre o uso de crack e o cloridrato de cocaína, e determinar como esses achados poderiam afetar a política de intervenção e tratamento dos usuários de cocaína nas suas diferentes formas.


As conclusões de Hatsukami em 1996 podem ser comprovadas até hoje, em especial no que diz respeito à forte e rápida dependência causada pelo uso de cocaína fumada (crack) quando comparada com o uso de cocaína inalada e à rapidez do efeito e necessidade maior de outra dose entre os usuários de crack.


Há outros problemas, de ordem psicológica e social, raramente descritos por pesquisadores, embora facilmente detectados no contato com os usuários. Assim, observa-se freqüentemente, em usuários de crack, um total descuidado em relação à sua aparência e asseio pessoal. Ocorrem também graves perdas dos vínculos familiares e sociais, sendo comum ouvi-los dizer que anteriormente tinham famílias, mas que estas teriam desistido de ajudá-los devido à sua insistência em continuar usando a droga.


Relatam também que antes estudavam e trabalhavam, mas que depois que o uso de crack se tornara sua principal atividade, abandonaram essas ocupações e suas garantias de inserção social. A “paranóia” também merece uma atenção especial, pois, como sabemos, este sintoma aparece em quase todos os usuários e é a responsável pela maioria das brigas nas cenas grupais de uso, nas quais amizades de longa data podem ser terminadas em função da droga.


Outra questão de grande importância e complexidade é a da troca de sexo por drogas e a realização de pequenos delitos para a aquisição de dinheiro para comprar a droga, fatos esses relatados no contato direto com usuários, e em diferentes estudos nacionais e internacionais (Nappo, 2001; Hatsukami, 1996; Harocopos et al, 2003; Barnaby et al, 2004; entre outros).


Mas afirmar que é o crack que provoca tais comportamentos é uma atitude preconceituosa. É necessário aprofundar estudos no perfil sociocultural dos usuários de crack dentro de suas realidades para que possamos fazer afirmações sobre o crack versus sexo e crack versus pequenos delitos.



Notas

[1] A maconha é considerada pela Organização Mundial de Saúde como perturbadora do Sistema Nervoso Central. Os usuários que usam crack com maconha relatam que se sentem mais tranqüilos, menos perseguidos e paranóicos.

[2]A “paranóia” é o efeito provocado pelo uso de crack que aparece na maioria dos usuários de cocaína-crack. É um sentimento de perseguição que pode levar à violência. Sob a paranóia os usuários desconfiam e tudo e de todos, ouvem vozes e sons que lhes provocam medo e pavor. Muitas vezes criam situações onde ficam acuados e escondidos

[3] A publicação da pesquisa está no prelo. Tivemos acesso aos dados preliminares por meio da reportagem do jornal Zero Hora.

[4] Baque é injeção de cocaína. Este nome se deve ao fato de que a injeção de cocaína provoca um efeito estimulante muito intenso, “um baque”.


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*Trecho da tese “CRAQUEIROS E CRACADOS: BEM VINDO AO MUNDO DOS NÓIAS!” Estudo sobre a implementação de estratégias de redução de danos para usuários de crack nos cinco projetos-piloto do Brasil, de Andrea Domanico. Clique diretamente na fonte: Scribid



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14 comentários:

  1. "Outra questão de grande importância e complexidade é a da troca de sexo por drogas e a realização de pequenos delitos para a aquisição de dinheiro para comprar a droga..."
    Concordo plenamente;
    Todo mundo q fuma, pode ser um trago, já é tirado de "nóia", perigoso, não confiável;
    A única coisa que eu acredito é que o fato de usar a droga "coloque pra fora" aquilo que o indivíduo já é; E não que ele " se torna" algo com o efeito.
    Isso parecesse com o Alcool, as pessoas não podem tomar um gole que já ficam alegrinhas, e fazem o que não tem coragem de fazer sãs.

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    1. me indentifico com td que li sou dep. quim. em tratamento, limpo a 3 anos, grato pela oportunidade de ler um texto tão enriquecedor.

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    1. Realmente vc fala isso porque não convive com um usuário ou é mais um usuário que já queimou todos os neurônios, pois só quem esta perto ve a pessoa tendo falta de ar, tendo principio de enfarte pode dizer com total confiança como isso acaba com a saúde e uma família.

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  3. Estou passando por isso meu marido e dependente químico e usa crack ja não Sei mais o que fazer estou desesperada...

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    1. Interna ele involuntariamente, tem clinicas de vários preços. Não dê mole pra ele não. Vc não é obrigada a conviver com isso. Frequente o Nar Anon para familiares de dependentes químicos e vá viver sua vida.

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  4. Estou passando por isso meu marido e dependente químico e usa crack ja não Sei mais o que fazer estou desesperada...

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  5. O bagulho é loko mesmo!! Só Deus pra libertar o homem desse Vício !! Experiência própria nesse vício que o diabo inventou mas não usou fdp !!

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    1. Vc fala isso pq nunca usou crack em um copo de guaravita, filho da puta

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  6. Ajudo pessoas com dependência química, São pessoas que aos poucos perderam , família, emprego, amor PROPIO e identidade. E certamente a única dependência que devemos ter é o amor a DEUS, a família,e o amor próprio, com bastante lucidez pq a vida para num piscar de olhos.

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